22.5.09

Peça: 52. A Primeira Vez Em Que Vi Eva*


Ela vinha nos visitar sem avisos prévios, sem dias marcados. Aparecia e deixava-se estar, como quem nasce do nada. Como quem nascesse de uma concha em meio ao nada. Chegava sempre ao entardecer e jantava conosco nas primeiras horas de nossas noites potiguares em família. Havia para ela sempre um lugar e um carinho em nossa pequena casa no alto da ladeira da rua de barro.
A visita inesperada dormia sempre em meu quarto, numa cama estreita ao lado da minha. A pouca idade que ostentava àquele tempo era uma bandeira de meu corpo inofensivo.
Ao fim das noites, quando já deitado esperava meu sono tranqüilo de todas as crianças, via-a chegar. Ao primeiro movimento, tímido como todo bom menino, eu abandonava o quarto para que ela pudesse vestir suas roupas de sono, ainda que jamais me tivesse pedido. Minha imaginação do outro lado da porta engendrava geometrias para o corpo feminino ainda desconhecido para mim. Dava-lhe curvas e texturas à minha maneira, guiado sempre pelos meus primeiros desejos, pelos primeiros sinais de luxúria em meu corpo frágil.
Não me esconderia de minhas vontades para sempre. Não me escondi.
Vi-a chegar por entre a porta, girando levemente a maçaneta para não despertar a casa. Não disse nada, não dissemos. Vi-a tocar a ponta da blusa e logo seu corpo seminu. Mesmo sua pouca beleza era melhor que a geometria que criara. A cor seridoense da pele não encontrava nome em meus poucos conhecimentos. Vi-a vestir suas roupas de sono. Eu ainda menino, tão menino. Meu corpo frágil ainda, diante do corpo pronto de uma mulher às minhas vistas.
Ela sorriu e deitou-se. Não compartilhava de meus desejos, certamente. Abracei-a ainda antes do sono, sem motivo aparente. Meu corpo era uma única chaga aberta pelo desejo não correspondido. Seu corpo era meu desejo e não mais que isso. Abraçou-me com um carinho maternal do qual não precisava. Abracei-a como deve ter o primeiro homem abraçado Eva em sua primeira noite de sono, ao senti-la deitar a cabeça em seu peito. Desta vez, Eva sob o olhar inquieto de uma lanterna colorida de papel, à moda das lanternas chinesas, que sempre iluminara meu quarto.

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*in A Casa Miúda. A imagem é do Klimt

5.5.09

Peça: 51. O Avesso das Coisas

o corpo íntimo das coisas
compõe seus
avessos:
XXXXXcomo o ventre mineral
de uma pedra
XXXXXcomo a musculatura em farrapos
de uma porta.

o avesso das coisas
é a natureza
de suas verdades -
XXXXXcomo as raízes frágeis
de uma nuvem
XXXXXcomo os ossos rijos
de uma parede.

XXXXXo útero
XXXXXos músculos
XXXXXintestinos
XXXXXe ossos
das coisas expostos
constroem seus avessos:
XXXXXcomo as nuvens
do ventre de um cão
XXXXXcomo o concreto
do ventre de uma casa.

20.4.09

Peça: 50. O Avesso da Triste Figura

às
5 da manhã
o quixote me desperta:

sua triste figura
e sua cavalaria
são
o avesso
de sua fealdade
e inépcia.

às
5 da manhã
o dia começa

por seu inverso -
avesso -
inverno temporão
das madrugadas
de janeiro.

e
o quixote
batendo às portas
de meu sono:

dulcinéa na ribanceira
de seu cavalo sem asas
e as raízes da noite
feitas pó
sob meus olhos
de madeira

13.4.09

Um Poema de Walt Whitman

Quem visita este museu sabe que não costumo publicar textos de outras pessoas, mas hoje abro uma exceção. Um poema de Walt Whitman que revela um tanto da esperança e beleza que tanto aprecio.

As Adam, Early In The Morning

AS Adam, early in the morning,
Walking forth from the bower, refresh'd with sleep;
Behold me where I pass--hear my voice--approach,
Touch me--touch the palm of your hand to my Body as I pass;
Be not afraid of my Body.

- Walt Whitman

30.3.09

Peça: 49. O Retrato de Um Cão Furioso

O cão furioso finalmente pesa-lhe sob as patas, atira-o ao chão. A mandíbula voraz enche-lhe o focinho irascível e faz jorrar sangue sobre si, sobre sua vítima. As patas pesam como o corpo de um elefante em mármore, esmagam-lhe a ossatura frágil, sua musculatura cede como de espuma. A boca infernal morde-lhe, arranca-lhe os membros, chafurda entre seus intestinos. O cão furioso devora-lhe centímetro após centímetro, ao avesso, de dentro para fora.

23.3.09

Peça: 48. O Poema (ou A Criação do Poema)

construto
em pedra bruta
a mão crua
tece
lima
brita
o verso

dá-lhe
cores novas
uma tessitura
cremosa
e inútil:

como uma
alma em ferrugem
ou
o ventre de um besouro.

20.3.09

uma segunda casa

o amigo thiago leite me convidou para participar de um blogue em que se publicam textos curtinhos. gostei da casa. posso também ser encontrado por lá agora.

o endereço é: pequenitudes

10.3.09

Peça: 47. Uma Paisagem Curraisnovense

pedra do caju II

sob o sol
um caju de manhã
aplaca a fome

fim de tarde
e a sombra constrói
a cara de um homem.


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a foto da pedra do caju, no sítio totoró, é do site www.cnagitos.com

3.3.09

Peça: 46. Outra Página de Um Caderno de Viagens

O tempo não há de durar. Mal sobrevivo aos dias e, por certo, não estenderei esta luta inglória. As ruas são cada vez mais escuras e mesmo o dia, sob este calor infernal, não é capaz de mostrar uma luz entre nuvens, ainda que haja sol.

Meus olhos estão confusos e não saberei dizer agora se é o corpo desta cidade ou a anatomia cansada de mim que desmorona esquina por esquina.

Somos feitos de becos, ela e eu.

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a foto, obviamente, é do Sebastião Salgado

25.2.09

às vezes estamos tão perdidos que não há nada a escrever. mesmo o que já está escrito não nos diz nada.

paciência.